Sunday, March 11, 2007

Lisboa, 11 de Março de 75

Evocação de um dia longo, início de um período de loucos...


«Sobre a tentativa de golpe do 11 de Março
«Nota da Comissão Política do Comité Central do PCP
«11 de Março de 1975
«1. Uma vez mais, no dia 11 de Março de 1975, a reacção tentou um golpe, conseguindo desta vez lançar um ataque de forças armadas aéreas e terrestres contra uma grande unidade militar, o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 1, além de outras acções militares de menor envergadura.
«A tentativa de golpe falhou graças à pronta e decisiva acção do Movimento das Forças Armadas e à gigantesca mobilização popular que, em poucas horas, de norte a sul do País paralisou quaisquer iniciativas fascistas e deu poderoso apoio às Forças Armadas. (…)»
À data, estava há uns meses em Portugal, regressado da guerra em Cabinda, era responsável pela informação na Câmara de Oeiras (o meu saudoso Orlando Gonçalves era o Presidente da Comissão Administrativa) e entrei na caldeirada pelo lado da Habitat (ia entrevistar a Comissão de Trabalhadores para o «Boletim Municipal», vejam só… – o que já não aconteceu: o Ralis do Dinis de Almeida estava a ser atacado pelos páras de Tancos, enganados, como mais tarde diriam…, eles, s da Habitat, arrancaram dali em camiões da empresa para irem defender a revolução no seu posto), regressei a Oeiras e dali para o Ralis… e foi o dia todo de trincheira em trincheira. Era o primeiro dia de um largo período louco de oito meses, até ao 25 de Novembro, e depois uma semana em casa clandestina (não sei até hoje onde estive). Uma loucura. Pouco saudável mas necessária e de que muito me orgulho, evidentemente. Obrigado por esses meses e orientação, PCP.

Crónica pessoal


Escolhi uma das muitas crónicas desse dia. Recolhi-a aqui. Leia só a rotação desse dia longo… Com algumas notas pessoais relativas a situações que, naturalmente, desconheço.

«11.45 – Ataque aéreo ao RAL 1 por aviões e pára-quedistas da BA 3 e Reg. Caça. Pára-quedistas, Tancos. O aeroporto é ocupado por “paras” de Tancos e encerrado. Mais tarde forças fiéis ao COPCON vão para lá. Reabre à noite.

No Carmo o cap. Lopes Mateus avisa o gen. Pinto Ferreira da contra-revolução e prende-o, com outros oficiais, numa sala da unidade. Oficiais contra-revolucionários: gen. Damião, maj. Garoupa (que saem de carro às 16.30 para se acolherem à embaixada da Alemanha Federal) e cor. Xavier de Brito que toma o comando da cavalaria.

12.45 – No exterior do RAL 1, diálogo entre Dinis de Almeida (do RAL 1) e Sebastião Martins (pára-quedista) acerca dos motivos do assalto. Segue-se ida dos dois comandantes, cor. Mourisca (RAL 1) e o maj. Mensurado (para), ao Estado Maior da F A, para entrar em acordo, que foi obtido pelas 14.30.

A partir das 12.45 – Primeiros apelos à mobilização popular, por parte da Intersindical. Fazem-se as primeiras barricadas nas estradas de Vila Franca e depois em Setúbal. Não se apanha nenhum fugitivo mas interceptam-se algumas armas. Também em Lisboa serão encontradas armas numa casa. Os bancos não reabrem à tarde e há piquetes de trabalhadores (cuja vigilância viria a causar a prisão dos administradores do Banco Espírito Santo por tentativa de levantamento ilícito de milhões de escudos). Sindicatos organizam em Lisboa e no Porto piquetes nos locais de trabalho e em pontos estratégicos (EN), que precisem de protecção. A população, em diversos pontos do país, acorre aos quartéis a receber ordens.

Fala-se em armas para o povo – e não só os partidos chamados de extrema-direita.

Assalta-se a casa de Lisboa do gen. Spínola e as sedes dos partidos de direita (em Lisboa, o PDC e o CDS, mas no Porto foi também atacado o PPD). Fazem-se grandes fogueiras na rua com material encontrado nos locais.

Cerca das 13 – Emissora Nacional declara-se a única voz autorizada e passa a transmitir exclusivamente informações da 5ª Divisão do Estado-Maior.

13.30 – Rádio Clube Português deixa de transmitir em onda média de Lisboa por ter sido atacado (estragos: 2 mil contos). Continua a transmitir em frequência modulada e onda média do Porto.

13.30 – Emissora Nacional – Capitão Clemente dá os primeiros elementos concretos.

13.30 – Entra a transmitir, em ligação, a Estação Rádio da Madeira (que seria protegida por forças do COPCON).

13.50 – Rádio Renascença interrompe a sua greve e entra a transmitir em simultâneo com RCP. Entram também, Rádio Ribatejo, Rádio Alto Douro, Rádio Altitude (Guarda).

14.40 – (Paras) levantam cerco. Confraternização.

Entretanto, em Tancos, há hesitações dos sargentos e praças que desconfiam das ordens recebidas. Ricardo Durão vai com Salgueiro Maia dialogar com o gen. Spínola, chegado na véspera à noite com alguns oficiais e a mulher, em carros transportado armas. Este, espantado, verifica estar tudo perdido. O gen. Tavares Monteiro é mais tarde preso em Tancos pelos seus sargentos.

14.45 – Emissora Nacional transmite o primeiro comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro.

15 – “ Diário de Lisboa” é o primeiro a sair, com a cobertura dos acontecimentos. Fará três edições.

15.10 – Televisão – anuncia em breves palavras os acontecimentos.

15.25 – TV – entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho.

16.00 – Mensagem do Presidente da República.

17.00 – Spínola chega a Talavera la Real, acompanhado de sua mulher e mais 15 oficiais, em quatro helicópteros. Está incomunicável. O governo espanhol não quer tomar nenhuma atitude de protecção. O general declara que não voltará a Portugal e fala em pedir asilo político ao Brasil, e mais tarde ao Chile. Soube-se que partiu para Buenos Aires, mas afinal recolheu ao Brasil.

17.15 – Discurso improvisado do Primeiro-Ministro.

Primeiras informações, mais tarde corrigidas: Spínola e Galvão de Melo fugitivos, de carro, gen. Damião preso. Saber-se-á mais tarde que Spínola foi de helicóptero para Espanha, que Galvão de Melo está em Viseu desde manhã em visita normal e que o gen. Damião não fora preso. Anuncia-se a prisão de Rafael Durão, comandante dos pára-quedistas de Tancos, que se entregou.

17.30 – Mensagem de Rosa Coutinho.

17.30 – O gen. Pinto Ferreira aparece à janela do Carmo, já livre, e fala depois aos seus homens, reafirmando confiança neles porque foram enganados.

17.45 – Mensagem do comandante Jesuíno à Imprensa.

Fala Mário Soares.

Nova entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho, transmitida pela TV (pelas 21.00) e, mais tarde, pelo RCP.

19.00 – Entretanto, todos os partidos convocam manifestações. Enquanto o PCP e o PS (recentíssimos amigos), se concentram no Campo Pequeno, com o Mes, FSP, MDP e Intersindical, no Carmo encontram-se dois independentes: o MRPP, vindo de Alcântara, a UDP, vinda do Rossio. Mas o principal local de manifestação popular foi junto ao RAL 1, pela noite adiante. Também no Porto e em Coimbra se fizeram manifestações unitárias e, no dia seguinte, também em Leiria, Beja, Setúbal, Viana do Castelo, Faro, Portalegre, o povo veio para a rua, ordeira e unitariamente, como lhe pediam. O PPD, que na província conseguia manifestar-se quase sem problema, em Lisboa esboçou uma manifestação motorizada mas foi muito atacado, na sua passagem pelo Rossio, onde esmurraram os carros e queimaram bandeiras, pelo que não se apresentou com delegação no Campo Pequeno. Nessa manifestação (mais disciplinada, mais política do que as dos primeiros dias de Abril e Maio), imperavam as palavras de ordem radicais, com grande lugar aos foras ao PPD. O que parece vir na sequência dos acontecimentos de Setúbal.

21.00 – Mensagem do Presidente da República em que dá a lista dos inculpados.

22.00 – RCP recomeça a transmissão em onda média, mas só retomará a programação normal no dia seguinte pelas onze horas.

01.00(dia12) – TV reportagem do ataque ao RAL 1. Mensagem do tem. Bargão dos Santos.

Entretanto, Rádio Renascença decidiu, uma vez interrompida a greve, continuar a transmitir, em moldes que se coadunem com o actual momento político. Os trabalhadores prosseguem, não tendo havido intervenção por parte da administração.»

Sérgio Ribeiro

E deixo-lhe aqui o relato apaixonado do meu grande amigo Sérgio Ribeiro. Não deixe de ler, peço-lhe. Vai achar surpreendente. Mesmo.

6 comments:

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